Há uma semana protestos tomaram conta de cidades importantes da Turquia e foram reprimidos com violência por forças policiais a mando do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan. Mas quais são as razões dessas manifestações?

A análise dos especialistas demonstra que a questão turca vai além das aparências. Tudo começou com um protesto local contra a derrubada de uma das poucas áreas verdes que ainda restam em Istambul, o Parque Gezi, para dar lugar a um shopping center. O premiê turco determinou a dispersão dos manifestantes e os policiais o fizeram com medidas excessivas, como gás lacrimogêneo e spray de gás pimenta. A partir daí, o descontentamento ganhou força contra a ação das autoridades policiais e voltou-se contra o próprio primeiro-ministro.

Na verdade, a motivação dos turcos em protestar extravasa a preocupação com o parque urbano. A política do premiê Erdogan não vem agradando há tempos a população. Integrante do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco), o primeiro-ministro não esconde sua tendência de islamizar a Turquia: medidas como limitações à liberdade de imprensa, detenções de opositores políticos e a pretensão de Erdogan de alterar a constituição do país para que possa alçar uma presidência com maiores poderes denotam que a Turquia se aproxima de uma séria crise.

O que não se pode perder de vista é o fato de que o atual cenário em Istambul não se liga às manifestações recentes conhecidas como “Primavera Árabe”, como divulgaram alguns. Isso por duas razões:

1ª – A Turquia não é árabe. O povo turco é de uma etnia própria que migrou para a região, conhecida como Península da Anatólia, por volta do século XI. A língua oficial do país é o turco, que também não se confunde com a língua árabe;

2ª – A Turquia é uma democracia laica desde a década de 1950. Os eventos da “Primavera Árabe” consistiram na resistência da população dos países dessa etnia em permanecer sob o jugo de ditadores ligados ao determinadas religiões. O primeiro-ministro Erdogan, por outro lado, foi escolhido democraticamente pelo povo nas últimas três eleições, na mais recente com quase 50% dos votos.

Talvez por isso a melhor expressão para o que está acontecendo seja o “Outono Turco”. A repressão violenta da polícia contra manifestações legítimas do povo e as intenções políticas do premiê demonstram que o país flerta com um autoritarismo que há muito tempo deixou para trás. Erdogan chegou até mesmo, como já fizeram diversos caudilhos, a culpar as redes sociais, como o Twitter e o Facebook, como responsáveis pelos protestos e seus resultados negativos.

O fato é que o mundo não vê mais espaço para ditaduras nascentes e para o retrocesso de Estados laicos voltarem a ser confessionais. Erdogan conta com a maioria islâmica da população para endossar suas medidas político-econômicas e quer agradá-la para manter sua base. O preço, porém, pode ser muito alto: uma simples derrubada de árvores se transformou, rapidamente, em uma ampla revolta social que já deixou três mortos e pede sua renúncia do cargo.

 

Leia mais: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/06/1289934-analise-turquia-se-volta-agora-mais-para-o-oriente.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/112406-turquia-perguntas-e-respostas.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Turquia